Pages

Subscribe:

31 de janeiro de 2009

Que coisa feia!


Uma campanha publicitária da Relish, uma rede de roupas femininas da Itália, revoltou as autoridades municipais e estaduais do Rio. Espalhadas em outdoors pelas cidades de Milão, Bolonha e Nápoles, as imagens mostram modelos aparentemente estrangeiras sendo abordadas e revistadas de forma abusiva e agressiva por policiais militares fardados. Em uma das fotos, na Praia de Ipanema, um PM com a farda do 22º Batalhão de Polícia Militar (BPM) do complexo da Maré, na zona norte, coloca a mão por baixo da saia da modelo.

Em nota, o secretário Turismo e presidente da Riotur, Antonio Pedro Figueira de Mello, repudiou a propaganda e informou que enviará à embaixada italiana um pedido de retirada imediata da propaganda das ruas. "Esse tipo de publicidade desrespeita não só a corporação da Polícia Militar como compromete a imagem do Rio de Janeiro e a dos próprios cariocas. É lamentável que fatos desrespeitosos e preconceituosos como esses ainda ocorram em pleno século XXI", afirma o secretário na nota. Apesar da semelhança, a PM informou que a farda não é oficial, mas garantiu que investigará o caso.


As fotos também ilustram o site da Relish. Apesar de na vida real o patrulhamento da orla de Ipanema ficar a cargo do 23º BPM do Leblon, na propaganda da loja policiais do 22º BPM abordam e prendem as duas italianas após o carro em que elas viajam enguiçar na orla. Em uma das fotos, um PM imobiliza a mulher no chão enquanto ao fundo outro policial segura a outra pelo pescoço. "A campanha é de mau gosto sob vários aspectos. É machista e reforça a associação perversa entre sexo e violência. Mas não é nem a primeira nem a última campanha publicitária a se valer desses elementos", afirmou a socióloga da Fundação Getúlio Varas, Bianca Freire Medeiros, autora do livro "O Rio de Janeiro que Hollywood inventou". No entanto, ela ressalta que a imagem do Rio que circula no mercado turístico global combina elementos sintetizados na propaganda italiana.


"Somos um paraíso tropical, mas também somos o lugar do risco e da violência. Gostemos ou não, precisamos admitir nosso quinhão de responsabilidade na produção e circulação dessa imagem de um Rio corrupto e violento".

29 de julho de 2008

A incrível fortuna do afilhado do prefeito


Com 5 anos, ele ganhou casas e gado de um político do interior de São Paulo. Pode ser um caso de generosidade. Ou de uso de um inocente para acobertar corrupção
Wálter Nunes, de Presidente Prudente (SP)

"Adoro esse negrinho. Tenho 76 anos e não vou levar dinheiro para o túmulo"
AGRIPINO LIMA, justificando as doações para Leandrinho
Leandrinho (nome fictício para preservar a identidade do garoto) tem a agitação típica dos meninos de 5 anos. Corre de um lado para o outro desviando da pouca mobília na casa de dois cômodos e sem reboco em que vive com a mãe e a irmã, na periferia de Iepê, cidade de pouco mais de 7 mil habitantes no sudoeste do Estado de São Paulo. Só pára quando percebe, desconfiado, a presença de estranhos. “Conta onde você esteve na segunda-feira, Leandrinho”, diz a mãe, Paula Jaqueline Lacerda. “Eu fui pra fazenda do tio Pino. Fui no avião dele”.

Quem olha para Leandrinho não deduz que o menino maltrapilho viaja de jatinho particular, diverte-se em fazendas suntuosas, possui três casas avaliadas em cerca de R$ 250 mil, um rebanho de cem cabeças de gado e uma poupança de R$ 10 mil no Banco Santander. Tudo graças ao tio Pino, modo como ele se refere a Agripino Lima, dono de fazendas, uma universidade, emissoras de TV e rádio em Presidente Prudente, a maior cidade do oeste de São Paulo, com 200 mil habitantes. Lá, Agripino Lima é o homem mais rico e o manda-chuva político. Já foi três vezes prefeito de Presidente Prudente, além de ter sido deputado estadual e deputado federal.

O Ministério Público de Presidente Prudente não acredita que a generosidade de Agripino Lima com Leandrinho seja apenas um exemplo de altruísmo. A suspeita é que ele tenha usado o menino como “laranja” (testa-de-ferro) para esconder uma suposta propina paga por empresários que têm contratos com a Prefeitura de Presidente Prudente. Como a investigação corre sob segredo de Justiça, os promotores não falam sobre o assunto. Mas há indícios que podem complicar Agripino Lima.

Duas das casas transferidas para o nome de Leandrinho nunca pertenceram oficialmente a ele. A proprietária era Maria de Lourdes Pinheiro, irmã de Oracir Pinheiro, dono da TCPP, a maior empresa de ônibus da cidade. Foi ela quem doou as propriedades ao pequeno Leandrinho. A operação aconteceu em dezembro do ano passado, dois meses após Agripino ter dado autorização para que a tarifa de ônibus da cidade saltasse de R$ 1,80 para R$ 2. A suspeita é que as casas doadas a Leandrinho tenham sido propina paga pela empresa TCPP.

Agripino Lima admite ter aumentado a tarifa de ônibus a pedido de Oracir Pinheiro, mas nega ter havido pagamento de propina e que Leandrinho seja um “laranjinha”. Diz ter se afeiçoado ao garoto, que teria conhecido por intermédio de uma sobrinha de sua mulher. Desde então, teria virado uma espécie de padrinho informal do menino. “Adoro esse negrinho”, diz Agripino, com uma forma peculiar de expressar carinho. “Estou comprando para ele mais uma casa e uma fazenda. Tenho 76 anos e não vou levar dinheiro para o túmulo”. Apesar de seu nome não aparecer em nenhum documento, Agripino diz que as casas em nome de Leandrinho eram de sua propriedade. “Comprei as duas por R$ 80 mil divididos em oito parcelas. Não transferi a escritura para não pagar imposto”, diz.

Por ser menor de idade, os bens de Leandrinho deveriam ser administrados pela mãe. Mas quem toma conta de tudo é a cunhada de Agripino Lima, Célia DeMattei. “Ela veio aqui e eu assinei uma procuração para ela poder mexer com as coisas do menino”, diz a mãe de Leandrinho, Paula Jaqueline Lacerda. Ex-empregada doméstica, Paula sofre de ataques epiléticos e não trabalha. Ela cria Leandrinho e a irmã Rayane, de 9 anos, com R$ 500 por mês, dinheiro do auxílio-doença e do Bolsa-Família, transferido pelo governo federal. “O Agripino às vezes dá R$ 50 para comprar umas coisinhas”, diz Paula.

A investigação do MP sobre Leandrinho aumenta a coleção de polêmicas de Agripino. No ano passado, ele perdeu o cargo de prefeito e os direitos políticos por cinco anos depois de ter sido condenado por improbidade administrativa (má conduta) numa importação de peças para a construção de um observatório astrológico em Presidente Prudente. Recentemente, também foi condenado pela contratação de uma empresa de lixo sem licitação. Ele próprio calcula que responde “a uns 200 processos”.


POBRE OU RICO?
Leandrinho brinca em sua casa modesta. Além do pequeno brinquedo de plástico, Agripino deu a ele casas, gado e dinheiro
Agripino reage às acusações com os velhos modos do coronelismo interiorano. Ele é investigado pelo Ministério Público de Iepê por ter feito ameaças a um promotor que queria impedi-lo de levar Leandrinho para sua casa sem o consentimento da mãe. Certa vez, atirou uma cadeira no pára-brisa do carro de um vereador de oposição que estava estacionado em sua vaga de prefeito. Obrigado a deixar a Prefeitura por causa de uma decisão judicial, rasgou o documento do juiz diante de fotógrafos e jornalistas. A briga que lhe deu maior notoriedade nacional ocorreu em 2002. Agripino interrompeu uma marcha do Movimento dos Sem-Terra que passaria por Presidente Prudente. Bloqueou a estrada com as máquinas da Prefeitura e desafiou o líder da marcha, Zé Rainha, para uma “contenda de mãos limpas”.

Também são controversas as disputas familiares de Agripino. Em 2001, logo após divorciar-se de Ana Cardoso Lima, ele entrou numa disputa com os filhos, repleta de agressões registradas em boletins de ocorrência policial, pelo controle de sua universidade – a Unoeste (Universidade do Oeste Paulista). Hoje ele controla a universidade, mas Ana Cardoso Lima é a reitora. A universidade é a jóia do império empresarial construído por Agripino Lima, um homem de origem pobre, filho de lavradores. Antes de virar empresário na área de educação, foi carroceiro, caminhoneiro e vendedor de carros e livros. “Era picareta. Comprava e vendia. Era bom de negócio”, diz.

A entrada no ramo educacional se deu num golpe de sorte e oportunismo. Em 1964, após o golpe militar, conheceu um sobrinho do general Golbery do Couto e Silva, eminência parda do regime militar. Aproveitou a amizade para pedir em Brasília uma licença para montar cursos universitários em Presidente Prudente. Diz que, para não chegar de mãos abanando ao gabinete de Golbery, parou na estrada e comprou um presente. “Levei uma melancia embaixo do braço. Eles partiram na hora e comeram tudo”, diz. A pouca sofisticação de Agripino teria agradado aos militares, que o habilitaram para instalar cursos de Ciências Sociais e Letras.

Sua prosperidade, afirma Agripino, se deve a uma combinação de tino empresarial e boa vontade divina. “Deus me ajuda muito”, diz, enquanto ajeita a dentadura na boca. “Tive duas isquemias que paralisaram a minha perna e meu braço, mas sarei. Caí cinco vezes de avião e não morri”. Agripino espalhou em Presidente Prudente a história de que teria encontrado Jesus Cristo, numa viagem a Mato Grosso. Depois disso, passou a construir igrejas na cidade e transformou o lugar onde mora em um santuário. Levantou uma igreja de 50 metros, repleta de vitrais, e reproduziu as 14 estações da via-crúcis com bonecos de gesso em tamanho real. Quer levar um padre para morar lá. Só não conseguiu ainda porque, fiel a seu estilo, está brigado com o bispo da região. Época num. 0532


OBS. Agripino Lima consta na lista daqueles que receberam presentes da Gautama.Veja

5 de maio de 2008

Como o país venceu

SE O GOVERNO FOI PEGO de surpresa pela concessão do grau de investimento, o mesmo não pode ser dito de quem acompanha os fundamentos da economia. A grande virada veio do setor exportador, especialmente a partir de 2003. “Foram os saldos comerciais que permitiram elevar as reservas e deram fôlego ao País”, disse à DINHEIRO o ex-ministro Luiz Fernando Furlan . A gestão das contas públicas e o controle da inflação nos últimos anos também foram destacados pela Standard & Poor’s. O saldo da balança comercial, por exemplo, teve um crescimento de 210% nos últimos seis anos. No mesmo período, a dívida pública teve uma redução de oito pontos percentuais e as reservas internacionais aumentaram em mais de 1.000%.

Na avaliação de alguns analistas, a independência conquistada pelo Banco Central nos últimos anos também foi essencial. E uma prova disso ocorreu na última reunião do Comitê de Política Monetária, quando a taxa Selic foi elevada em 0,5 ponto percentual. O elogio ao BC de Henrique Meirelles foi estampado no relatório da S&P divulgado ao mercado. “Do ponto de vista de solvência, o Brasil já é um país bastante confiável e solvência é um item essencial para obter a classificação”, analisa Alexandre Póvoa, diretor da Modal Asset. “Ter um BC atento às intempéries do mercado conta pontos importantes nessas horas.” O resultado do superávit fiscal, divulgado no mesmo dia da elevação no rating brasileiro, também influenciou. No primeiro trimestre deste ano, o governo central teve um superávit de R$ 31,3 bilhões, resultado 65,5% acima do registrado anteriormente. Com isso, o superávit primário acumulado ficou em 4,65% do PIB. São números que, se forem mantidos, não levarão o Brasil a perder o tão almejado grau de investimento.


“O BRASIL AGORA É SÉRIO”

O empresário Luiz Fernando Furlan, ex-ministro do Desenvolvimento, foi um dos responsáveis pelo grau de investimento, ao comandar o esforço exportador brasileiro. À DINHEIRO, ele falou sobre essa conquista.

O que significa o investment grade?

Significa que o Brasil já é visto como um país sério e que o mundo reconhece todos os nossos progressos econômicos. Mas essa é uma maratona, e não uma corrida de fôlego curto. O Brasil ainda tem muito o que fazer em outras áreas, como a infra-estrutura. A classificação deve ser comemorada, mas não encerra a nossa caminhada.

Quais foram os fatores decisivos?

O principal, a meu ver, foi a virada nas contas externas. Em janeiro de 2003, o Brasil exportava US$ 60 bilhões ao ano. Hoje, o número acumulado em 12 meses é próximo a US$ 165 bilhões. Foram os saldos externos que deram tranqüilidade e solvência ao País. Outro ponto, não menos importante, foi o compromisso do Henrique Meirelles com a inflação baixa.

Mas as contas externas não estão piorando?

O que aconteceu neste início de 2008 foi cíclico. As empresas aumentaram suas remessas porque os lucros cresceram muito. E a melhor coisa que o País pode fazer é estimular a criação de novas multinacionais brasileiras. O Brasil já tinha umas 20 empresas consideradas investment grade, como Vale, Gerdau e Embraer, justamente porque são internacionalizadas e têm receita em moeda forte. Precisamos de muitas outras multinacionais.(IstoÉ)

Investimentos: As velhinhas da Califórnia vêm aí

UMA PLATÉIA DE GESTOres e investidores internacionais, reunidos no Hotel Unique (SP) na terça-feira 29, ouviu Mauro Bergstein, diretor-executivo do Credit Suisse, exaltar as melhorias macroeconômicas brasileiras nos últimos 15 anos. E a sentença:

“O investment grade acontecerá ainda este ano e um novo fluxo de investimentos virá para o País”. Poucos podiam imaginar que, no dia seguinte, ocorreria a elevação do Brasil para grau de investimento pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s. Ao subir um degrau na escala da S&P, o mercado de capitais brasileiro sai do nível especulativo e entra no radar dos grandes fundos institucionais estrangeiros.

Os maiores interessados na rápida elevação da nota soberana do Brasil eram os fundos mútuos e de pensão, principalmente os americanos. Anteriormente, muitos tinham uma restrição de aplicar até 12% do patrimônio nos chamados alternative investments, como o Brasil pré-grau de investimento. Alguns se aventuraram e já desembarcaram, provocando uma primeira onda, com entrada em IPOse aquisição de cotas de outros fundos. Como são responsáveis por um bolo de US$ 10 trilhões, é provável que uma segunda onda possa começar.

“Os fundos vão acessar todas as categorias de investimento e vão gerar uma mudança significativa na alocação de recursos”, diz Amaury Júnior, sócio da Vision Brazil Investments.

A primeira onda já atraiu algumas “velhinhas” americanas milionárias ao País. O California Public Employees (Calpers), maior fundo de pensão dos Estados Unidos, possui mais de US$ 1 bilhão em investimentos por aqui. São US$ 885 milhões em ações de empresas como Cyrella, Grendene e Eletrobrás e US$ 90 milhões em investimentos imobiliários. É pouco se comparado ao patrimônio do fundo, calculado em US$ 244 bilhões. No Calpers, não é o grau de investimento que tornará o Brasil mais vistoso. “Nossa política nos permite investir no Brasil desde junho de 2005”, afirmou à DINHEIRO Clark McKinley, diretor de governança corporativa do Calpers.

“Vemos oportunidades e, se você é esperto, vê que o Brasil é uma excelente oportunidade”, diz.

Já o California State Teachers (Calstrs), o terceiro maior fundo norteamericano, tem muito o que enviar.

Até hoje, só investiu US$ 30 milhões em títulos federais. Seu patrimônio total soma US$ 164 bilhões. A aplicação de novos recursos será criteriosa. “O aumento da classificação de um país sempre representa algo positivo, mas isso não impacta necessariamente no nosso apetite por investimentos em seus papéis”, explica Ricardo Duran, porta-voz do Calstrs. A decisão será dos gestores. O primeiro movimento será uma troca de investidores. Muitos apostaram lá atrás no grau de investimento e se preparam para realizar lucros. “Não espero um grande movimento. Mudará o perfil do investidor”, afirma Pedro Guerra, diretor do Citibank. Os fundos de pensão, por exemplo, vislumbram o longo prazo. “Haverá uma entrada na renda fixa com prazos mais longos”, diz Marcelo Kfoury, economista-chefe do Citibank.

“A NOTA REFLETE MATURIDADE”

A analista Lisa Schineller acompanha o Brasil para a Standard & Poor’s há cerca de 10 anos. Pois foi a evolução do País em todo esse período que ela levou em conta ao recomendar a elevação do Brasil para grau de investimento na escala de riscos da S&P. “Foi o resultado de um trabalho que começou no governo Fernando Henrique e continuou”, afirmou à DINHEIRO.

Houve algum gatilho para a decisão?
Não houve um motivo específico. A elevação reflete a combinação de políticas e do desempenho dos indicadores desde maio do ano passado, quando fizemos a elevação anterior e mantivemos a perspectiva positiva. Mesmo sem a CPMF, o governo confirmou seu compromisso com a meta fiscal, como tem feito há quase dez anos. Isso, num contexto do desempenho de baixo nível de inflação, mais credibilidade, transparência e previsibilidade.

O crescimento da inflação no Brasil não preocupa?
O Banco Central elevou os juros em abril. Isso reflete a independência operacional do BC e o compromisso de manter a inflação na meta.

O investment grade não teria saído sem a alta dos juros?
Não necessariamente. Mas sem dúvida a atuação reforça nossa confiança. É um exemplo de política pragmática para manter a estabilidade da economia brasileira. Apesar da situação externa mais difícil, o Brasil continua a atrair investimento direto. Isso reflete mais maturidade na política e na economia.

29 de abril de 2008

Os segredos do espólio de ACM


A tentativa de capturar papéis sobre contas no Exterior motivou a invasão do apartamento da viúva, deflagrando a briga familiar que inclui a acusação de furto de peças sacras e a revelação de que um novo herdeiro teve direito à partilha dos bens de Antônio Carlos Magalhães

A cinematográfica invasão judicial à residência da viúva do ex-senador Antônio Carlos Magalhães, ocorrida no dia 11 de março, ganhou repercussão como um ato de ganância de Tereza e César Mata Pires, filha e genro do falecido senador baiano, contra a viúva Arlette. A presença da juíza Fabiana Pelegrino, mulher do deputado petista Nelson Pelegrino, adversário de ACM, à frente da ação em que oficiais de Justiça arrombaram portas e cofres e catalogaram obras de arte, politizou a ação judicial. Mas, longe das disputas paroquiais, por trás da ação orquestrada por Mata Pires estava a tentativa de encontrar uma série de documentos que serviram para que ACM o mantivesse sob controle por quase uma década e que revelam a face oculta da construtora OAS. A papelada mostra as contas da OAS em paraísos fiscais, dinheiro de caixa 2 e remessas ilegais de lucros para o Exterior em nome de Mata Pires.

Os documentos foram parar nas mãos de ACM no final de 1994, quando o senador era reconhecido como um dos homens mais influentes do País. Em 18 de dezembro daquele ano, José Raul Sena Gigante, então procurador da construtora, desembarcou de um vôo da British Airways no aeroporto internacional de São Paulo, em Guarulhos, e foi surpreendido por uma operação da Polícia Federal, que visava encontrar em sua bagagem provas de uma suposta relação entre a empreiteira baiana e o esquema PC Farias, o ex-tesoureiro de Fernando Collor de Mello. Na operação, a PF mirou um alvo e atingiu outro, que não estava no roteiro. Gigante levava duas malas 007, nas quais estavam maços de papel e oito cartões do Coutts&Co. Bank. Os cartões eram nominais a Carlos Laranjeira, Luiz Abreu Silva, Telma Maria Silva, Carlos Seabra Suárez, César Mata Pires, Luiz da Rocha Sales Filho, Nicolau Martins e Teresa Martins. Todos eles sócios e ex-sócios da OAS. Em uma das pastas havia documentos de diversas instituições financeiras estrangeiras, dentre as quais a Tiel Finance Corp. e o Citibank, ambas em Luxemburgo. Havia também documentos de empresas constituídas em paraísos fiscais, bem como procurações de cofre-forte do J.P. Morgan S/A da Suíça, em nome de um certo "Jurandir", e cerca de US$ 3 mil em espécie.

Gigante também viu serem apreendidos seu notebook e uma agenda manuscrita. Segundo delegados que participaram das investigações, Gigante seria o testa-de-ferro de ACM e de Laranjeira na Marnell Holdings Ltda., empresa nas Ilhas Virgens Britânicas, usada pela OAS para a aplicação de dinheiro no Exterior. Essa empresa dispunha de títulos do Tesouro americano, no valor aproximado de US$ 35 milhões, aplicados na União Bancária de Crédito, da Suíça. Um dos documentos encontrados era uma correspondência de Gigante enviada ao escritório de advocacia Noronha, especialista em direito americano, na qual se discute sobre negócios e transações com firmas estrangeiras, implicando um grupo empresarial brasileiro. O valor total desses negócios: R$ 500 milhões.

Com esse material em mãos, o senador, que se encontrava distante do genro, passou a ter César Mata Pires e a OAS sob controle. As conclusões do inquérito aberto naquela época, e que ganhou o número 95.0100045-1, eram de que os documentos e meios eletrônicos continham indícios de que "havia uma rede de empresas estrangeiras em paraísos fiscais, indiretamente constituídas pelo grupo OAS, com vista a proceder à lavagem de dinheiro proveniente de procedimentos ilícitos em exportações e outras fraudes." Era essa documentação que Mata Pires esperava encontrar no cofre de sua sogra. Mas, na lista do que foi achado pelos oficiais de Justiça que participaram da operação no apartamento de dona Arlette não há nenhuma menção a esses documentos. Ou seja, a jogada articulada por Mata Pires acabou resultando em um fracasso. O fracasso, porém, acabou acirrando a briga surda travada pelos Magalhães em torno do espólio de ACM, que coloca em pólos opostos o próprio Mata Pires e o atual senador Antônio Carlos Magalhães Jr., pai do líder do DEM na Câmara, Antônio Carlos Magalhães Neto.

Documento falso
A disputa concentra-se numa das jóias da coroa da família Magalhães: a Rede Bahia, a emissora de tevê que lidera o império de comunicações da família. A legislação brasileira, segundo o artigo 54 da Constituição, proíbe que parlamentares sejam sócios de televisões. ACM Jr. era o gestor da tevê. Com a morte do pai, assumiu sua cadeira no Senado, mas não deixou a tevê, o que poderá fazer até com que o governo venha a cassar a concessão. Sabedor disso, Mata Pires planeja novos disparos contra os Magalhães. Ele tem interesse em voltar às suas origens empresariais na Bahia, e acredita que a posse da televisão é o melhor caminho para que a OAS reencontre espaço no fechado mercado baiano. Para evitar o golpe, ACM Jr. tratou de procurar se defender e para tanto carrega consigo uma ata de reunião dos acionistas da tevê mostrando que ele não mais exercia o posto de gestor, mesmo antes da morte de ACM pai. O problema é que, segundo laudo elaborado pelo perito Ricardo Molina, da Unicamp, o documento é falso. Em suas conclusões, o perito indica que a ata, apesar de datada de 2004, foi produzida e assinada em 2007. Esse documento está cuidadosamente guardado com Mata Pires e serve na busca de um acordo na divisão dos bens do falecido senador.
Enquanto o acordo não é obtido, os Magalhães também procuram se municiar contra Mata Pires. Valendo-se das prerrogativas de senador, em 18 de março, ACM Jr. apresentou um requerimento ao Tribunal de Contas da União pedindo informações sobre todos os processos, "instaurados a partir do ano de 2002, concluídos ou em andamento, que envolvam a Construtora OAS".

Tanto os Magalhães como Mata Pires evitam declarações públicas sobre a guerra que estão travando. Mas, a amigos, Mata Pires não tem poupado os parentes de sua mulher. Tem dito, por exemplo, que entre os bens relacionados no apartamento de dona Arlette estão imagens sacras que foram roubadas de Igrejas do interior da Bahia e que estão catalogadas pelo Iphan. "A acusação pode mesmo ser procedente. No apartamento existem várias imagens sacras e houve uma época em que era comum prefeitos do interior presentearem lideranças políticas estaduais com imagens retiradas das igrejas", disse à ISTOÉ um dos oficiais que participaram da invasão do apartamento de dona Arlette. Para a Polícia Federal, não é difícil descobrir se o falecido senador mantinha ou não em sua coleção de obras sacras santos roubados. Basta comparar a listagem já feita pela Justiça com os catálogos do Iphan e com as reclamações feitas pelos padres do interior do Estado.

No meio dessa disputa, foi dada a única declaração de ACM Jr. sobre o litígio, numa nota em que comentava declarações do advogado de Mata Pires, André Barachísio Lisboa, ao jornal baiano A Tarde. "Com a morte do senador ACM, o senhor César Mata Pires tentou de maneira agressiva, antiética - fugindo a todas as regras que regem uma empresa de comunicação com responsabilidades sociais e constitucionais - assumir o controle da Rede Bahia de Comunicação, conquanto dita rede não integra o patrimônio do espólio", diz a nota. "Frustrado no seu ambicioso intuito de controlar a Rede Bahia, o empresário César Mata Pires resolveu constranger a família do senador Antônio Carlos Magalhães, criando uma disputa dolorosa e desnecessária em torno do processo de inventário", prossegue. Mata Pires respondeu também com uma nota, enviada ao diretor superintendente do jornal A Tarde, Renato Simões. A nota, obtida por ISTOÉ, não foi publicada pelo jornal. Comenta o requerimento feito por ACM Jr. ao TCU. "Os pedidos (são) inócuos, pois tudo o que está no TCU tem um trâmite definido, em nada acrescentam aos eventuais processos existentes e revelam dois dos males do nepotismo: oportunismo e despreparo para a função pública", diz Mata Pires.

Em sua declaração de renda de 2002, apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral, ACM afirmou ter um apartamento em Salvador e outro no Rio de Janeiro, um terreno em Madre de Deus (BA), uma casa e um lote em Brasília. Além desses imóveis, havia os chamados "valores mobiliários": ações da Petrobras, Banco do Brasil, Banco Econômico, Vale do Rio Doce e Transworld & Trust Limited, além de pequenas participações em empresas da família - nenhuma delas da TV Bahia ou da Bahiapar. Na declaração, ACM não esqueceu de citar a coleção de "santos antigos brasileiros", "quadros de pintores nacionais" e "objetos de prataria antiga", mas nada individualizado e avaliado. Não se trata de bens que somariam R$ 500 milhões e nem que justificassem tanta briga entre pessoas de uma mesma família.

No caso da de ACM, ela foi ampliada pouco antes da sua morte com a revelação de que havia mais um herdeiro, até então mantido na sombra. Nessa conversa, ele pediu à família que reconhecesse como herdeiro legítimo um filho fruto de uma longa relação fora do casamento. Ele deveria ter os mesmos direitos dos demais na partilha dos seus bens. Após a morte de ACM, no entanto, sua vontade não foi imediatamente respeitada pelo resto da família. O novo herdeiro, então, ameaçou pedir a exumação do cadáver do pai, caso não lhe dessem uma parte igual à dos irmãos na partilha. A solução acabou surgindo com a oferta de uma considerável parte dos bens de ACM. Incluiuse nesse acordo o apartamento nº 202 do Edifício Ludwig, localizado na avenida Vieira Souto nº 272, no Rio de Janeiro, comprado no dia 3 de maio de 1978. Quando comprou o apartamento, ACM prometera à mãe do rapaz que ia romper o casamento para assumir a nova relação. Ao final, falou mais alto o apreço à estabilidade familiar. Estabilidade que ruiu estrepitosamente com a morte de Antônio Carlos Magalhães(MINO PEDROSA
Isto é num. 2008)

A inteligência do PCC


Escutas telefônicas revelam que líderes do grupo criminoso querem montar esquema para espionar autoridades e participar das eleições

Inspirado no exemplo da Cosa Nostra italiana, o Primeiro Comando da Capital (PCC) prepara um movimento inédito e ousado na história do crime organizado no Brasil. Planeja montar uma central de inteligência clandestina a fim de espionar autoridades do governo estadual, políticos e policiais e, por meio de financiamento de campanhas eleitorais, se infiltrar na política já nas eleições municipais deste ano. É o que revela a íntegra de escutas telefônicas feitas com autorização judicial por autoridades do governo de São Paulo que embasaram a prisão, no último mês, do advogado ligado ao PCC, Sérgio Wesley da Cunha, à qual ISTOÉ teve acesso.

A interceptação dos diálogos mantidos em janeiro pelo advogado Wesley com Júlio César G. de Moraes, o Julinho Carambola, segundo homem na hierarquia do PCC, e com Daniel Vinícius Canônico, o Cego, considerado o porta-voz de Marcos Camacho, Marcola, o principal líder da organização, revela as negociações para compra do sistema Guardião - computador usado pela Polícia Federal para gravar centenas de ligações telefônicas simultaneamente. Os líderes do PCC disseram ao advogado que estavam dispostos inclusive a custear a ida dele para Miami (EUA), onde o equipamento poderia ser arrematado por R$ 700 mil. Como não poderiam comprá-lo como pessoas físicas, os criminosos se declararam dispostos a abrir uma firma de segurança de fachada em nome de um laranja.

No diálogo, o advogado, que cobra R$ 10 mil pelo serviço, diz o que será capaz de fazer caso consiga o equipamento. E cita como possível alvo do grampo o delegado Rui Ferraz do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic), que conduziu as principais investigações contra o PCC e é considerado o inimigo nº 1 de Marcola. A partir do telefone do delegado do Deic, explica o advogado, ele conseguiria monitorar o telefone dos demais policiais. Ele sugere que teria o delegado Ferraz na mão ao revelar que o fez depor a seu favor na CPI do Tráfico de Armas em 2006 no Congresso. À ISTOÉ, o delegado Ferraz disse que o advogado estava mentindo para os líderes da facção na tentativa de alardear uma pretensa influência entre os inimigos do PCC. "A mulher do Marcola pegou oito anos de reclusão graças a uma investigação minha. Já coloquei na cadeia vários clientes dele", lembrou. "Na CPI, não o protegi. Disse a verdade, porque na época ele não trabalhava para o PCC."

Os diálogos mostram ainda a intenção do PCC de se aproximar das campanhas de pré-candidatos às eleições municipais de outubro e de partidos a fim de ganhar capilaridade política. Preso em 10 de março deste ano em seu escritório, na zona norte de São Paulo, Wesley tinha sido designado pela facção para fazer a ponte com os tesoureiros dos partidos políticos. Na conversa, quando Wesley diz a Canônico que irá enviar-lhe a relação dos pré-candidatos, é citado o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM). Wesley ainda fala num "menino do PSDB" - talvez o exgovernador Geraldo Alckmin. Apesar dessa menção a candidatos à prefeitura paulista na conversa, nada das gravações indica que a pretendida aproximação do PCC com os políticos tenha ocorrido. Nem que os candidatos citados tivessem envolvimento com a facção criminosa. Nos diálogos, Wesley alega que conhece o submundo das campanhas políticas e que, por isso, estaria credenciado para fazer os contatos. O advogado atribui esse conhecimento ao fato de ter trabalhado, no passado, nas campanhas do ex-prefeito Paulo Salim Maluf. Procurada, a assessoria do deputado Maluf (PP-SP) diz que o parlamentar nunca ouviu falar no advogado e que ele jamais trabalhou em campanhas dele, nem do PP.

Segundo o presidente da CPI do Sistema Carcerário na Câmara, deputado Neucimar Fraga (PR-ES), que visitou presídios em 17 Estados brasileiros, a presença do PCC tem aumentado nas carceragens em todo o País, contando, inclusive, com a conivência das autoridades. No presídio estadual de segurança máxima em Mato Grosso do Sul os detentos colocaram, no final do ano passado, um painel de saudação do PCC com os dizerem "Nós da família PCC desejamos a todos um Feliz Natal e Ano-Novo". Os agentes penitenciários dizem que não arrancaram até hoje o cartaz porque têm medo de represálias.

O advogado Wesley teve prisão preventiva decretada pela Justiça para evitar que continuasse se comunicando com a cúpula do PCC. O advogado foi considerado pela polícia uma das peças mais importantes no plano da facção de criar a central de monitoramento e escuta clandestina e se infiltrar na política. No jargão dos líderes do PCC, atuava como uma espécie de pombo-correio. Além de ser ligado a Carambola e Canônico, Wesley tinha uma relação de confiança com o chefão Marcola. Nos diálogos com os líderes da organização criminosa, o advogado disse que foi numa conversa com Marcola que ressurgiu a idéia de a organização criminosa ter representação política. Depois dessa conversa, foi organizada uma passeata patrocinada pelo PCC em frente ao Congresso, em novembro de 2007. Na ocasião, a facção fretou ônibus em mais de dez Estados para protestar contra o descumprimento da Lei de Execuções Penais.

TRECHOS DAS CONVERSAS ENTRE O ADVOGADO SÉRGIO WESLEY E OS CHEFÕES DO PCC DANIEL CANÔNICO E JULINHO CARAMBOLA EM JANEIRO DE 2008

O "GUARDIÃO"

Sérgio Wesley - Agora, aquele equipamento que eu te disse custa R$ 700 mil, que é o Guardião. O Gaeco tem. Daniel Canônico, o Cego - Qual é a forma de pagamento?
Wesley - ...Eu preciso ver porque a empresa parece que não vende. Não está autorizada a vender para pessoas físicas. Só vende para pessoa jurídica ou governamental. Então o que tem que fazer? A gente tem que abrir uma firma em nome de um laranja, uma firma de segurança ou alguma coisa parecida, e comprar através da firma. É lá no Rio Grande do Sul.
Canônico - E se precisar... Se precisar o senhor ir para Miami para comprar qualquer tipo de aparelho, pode ir! Julinho Carambola - Tem que comprar essas máquinas aí!
Wesley - Eu com um negócio desses na mão e com treinamento, eles tão f... Eu cato todos. Tenho todos os telefones dos tiras ali dentro. Do Rui Ferraz eu tenho o telefone dele. Então, através disso daí, a gente vai expandindo. Ele grava 1.300 ligações simultâneas.

COMO A MÁFIA

Wesley - O negócio é a gente fazer negócio, ganhar dinheiro e é lógico: crescer na parte ideológica. Você não vê, na Itália a Cosa Nostra, no Japão a Yakuza, o negócio é se estruturar. É com informação, com material humano bom, é com inteligência, sigilo.

IDEOLOGIA

Carambola - A ideologia nossa é além do crime, entendeu?
Wesley - Eu sempre falei pro Marcos (Marcola), uma vez que conversei com ele, longamente, olho no olho: Marcos, a gente precisa ter uma representação política.

ELEIÇÕES

Wesley - Tem o Kassab, o menino do PSDB. Eu vou te passar a relação de nomes, porque eu tô definindo ainda. O que a gente precisa assim: tem aqueles pré-candidatos, que cada partido tem três ou quatro...

MALUF

Wesley - Eu trabalhei na campanha do Paulo Maluf há uns 15, 20 anos atrás e eu sei como é o esquema todinho, entendeu? E o dinheiro é em cash, tava lá na avenida Brasil, os meninos foram até pra pegar lá.
Carambola - Faz esses levantamentos, tá bom?
Wesley - Com certeza, porque meu interesse é ganhar dinheiro também.(SÉRGIO PARDELLAS. Isto é num. 2008)

25 de abril de 2008

A oposição sonha com a Portelinha


A vida da oposição seria mais fácil se o Brasil fosse uma imensa Portelinha.

A vida seria mais fácil para a oposição se o Brasil fosse assim uma imensa Portelinha. Na favela da televisão, ninguém deve nada ao governo, nem mesmo a ONG da Condessa. Os pobres pedem favores ao manda-chuva Juvenal Antena, e não se fala em Bolsa-Família. O cuca Bernardinho montou seu restaurante sem a ajuda do crédito consignado ou de bancos oficiais. A universidade particular de dona Branca recebe dinheiro de beneméritos e não dá bolsas do ProUni. Lá, na Portelinha, bandido é bandido e deputado é mocinho. Nem precisa bater ponto em Brasília para garantir o mandato e fazer obstrução.

No Brasil de verdade, a oposição está diante de uma montanha de obstáculos que não se vê na novela. O leitor não se iluda: quem apanha todo dia, nos discursos no Congresso e nas notícias, é o governo velho de guerra (é assim desde sempre), mas quem vive uma crise profunda, de identidade inclusive, é a oposição. Fora do poder há cinco anos, PSDB e DEM viram aliados aderir a Lula, perderam as bases eleitorais no Nordeste e precisam defender, nas eleições municipais, as grandes cidades do Sul e do Sudeste que estão sob seu comando.

Oito cardeais do PSDB e do DEM reuniram-se em São Paulo, na semana passada, para discutir os rumos da oposição. Do que transpirou do encontro, falaram tão mal do governo quanto uns dos outros. Segundo o relato oficial, concluíram que o PT é o adversário a ser derrotado nas eleições de 2010. É bom avisar, porque nem parece. Os dois únicos políticos da oposição em condições de levar a tarefa adiante – José Serra e Aécio Neves – não estavam na reunião. Isso dá a medida da distância entre intenção e realidade. Mais ou menos a mesma entre o país e a novela.

O mundo da oposição tem-se resumido a Brasília, onde sustenta contra o governo uma guerra de desgaste na trincheira do Senado. Graças à contribuição milionária de todos os erros (como dizia o poeta Oswald de Andrade) do Planalto e do PT, vem obtendo relativo sucesso nesse terreno. Chegou a impor uma grande derrota a Lula em dezembro, na votação que acabou com a cobrança da CPMF. “De que adiantou aquele esforço se não ganhamos as ruas com o resultado?”, pergunta-se o líder tucano Arthur Virgílio. “De que adiantou se nem meus companheiros me cumprimentam pela vitória?”

Na favela da TV não existem os obstáculos que PSDB e DEM não conseguem transpor na vida real

Arthur Virgílio é uma das vozes mais estridentes da oposição. Gente do governo diz que ele é um maluco incendiário. Gente da oposição também acha. Pediram para ele falar menos. Ele acha que os colegas precisam falar mais. “Temos companheiros imaginando como seria nossa volta ao governo no pós-Lula, quando ainda nem aprendemos a fazer oposição”, diz. “Temos sido presunçosos e arrogantes, diante de um adversário iletrado, mas esse iletrado nos aplicou duas surras de 40 milhões de votos”.

Há uma centelha de lucidez na fala do senador, além da autocrítica. Arthur Virgílio quer ver sua gente na rua. “Deveríamos estar no sul do Pará, escancarando a falta de autoridade do governo diante do atrevimento do MST”, dizia na semana passada, quando militantes dos sem-terra bloqueavam a ferrovia da Vale em Carajás. Fazer isso – e carregar idéias para melhorar o país – seria mais útil à oposição que tentar proibir o presidente Lula de fazer inaugurações em comícios país afora, como pede uma ação judicial movida pelo DEM.

Enquanto não se acertar internamente e não acertar seu discurso para o país real, a oposição vai ficar assistindo à novela, na qual quem abusa do cartão corporativo devolve o triplo do que gastou. Parece que roubaram o caixa dois do Juvenal Antena. Isso deve equilibrar a disputa eleitoral. Lá na Portelinha.

15 de abril de 2008

Assim é São Paulo


Homem dorme em banco de ponto de ônibus na av. Paulista; frente fria trouxe garoa a SP na madrugada desta terça-feira